The 1975 constrói narrativa genial sobre a pós-modernidade em novo álbum

O nosso tão amado The 1975 está de volta com o tão aguardado novo álbum, A Brief Inquiry Into Online Relationships. O que podemos dizer? Os meninos fizeram novamente. Eles entregam aqui mais uma vez um som inovador com um contexto completamente contemporâneo. Estamos falando de mais uma obra atual e sensata que aborda os paradoxos psicológicos do amor e tecnologia em meio à modernidade. De forma crua, rica e inusitada, The 1975 brilha e transborda genialidade, repetindo a dádiva de seus discos anteriores. 

Aos 29 anos, Matt Healy, tem muito o que dizer nesse álbum. Isso já era avisado no carro-chefe “Give Yourself a Try”, em versos como “You learn a couple of things when you get to my age”. Isso é constante nesse novo trabalho. Todo o sucesso comercial absurdo do disco anterior, a internação no centro de reabilitação em barbados e seu vício em heroína certamente espelhou um cenário de muita reflexão para este novo disco, criando mais um universo peculiar, exótico e angustiante, mas que diz muito sobre como vivemos e nos relacionamos em tempos intermediados pela tecnologia.

Isso já é de se notar logo na tão tradicional intro “The 1975”, famosa por abrir todos os álbuns da banda, porém sempre com arranjos diferentes que introduzem o que está por vir. Dessa vez, o piano nos introduz ao universo do disco com muita melancolia que, somado aos vocais computadorizados de Healy, temos o contraste predominante do que nos aguarda: a pura natureza humana contra a fútil tecnologia que nos acompanha diariamente.


Seguindo com o carro-chefe “Give Yourself a Try”, a banda dá uma grande lição para os chamados de Millenials e New Millenials. Com bateria agitada e riffs de guitarra distorcidos e frenéticos, The 1975 traduz musicalmente o caos da nossa vida após descobrir que a felicidade idealizada na juventude não existe. A música cai, portanto, como um convite para a libertação de todas as tentações que nos envolve hoje.

Logo depois dessa faixa tão exuberante, temos uma faixa inusitada, “TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, um dos momentos mais pop friendly te toda a carreira dos meninos. Para representar a nossa superficialidade nos tempos de hoje, temos aqui um instrumental genérico à la Justin Bieber para nos guiar pela história de um relacionamento também raso, frágil e instável, que convenhamos que vem sido cada vez mais presente em nossas vidas. De um jeito divertido e fluído, The 1975 vai contra os princípios “indie”, reafirmando sua personalidade pop e autêntica. 


Após o momento agitado das anteriores, vamos para um dos momentos mais experimentais e ambiciosos da banda: “How To Draw/Petrichor”, marcada por um instrumental genuíno e lúdico que cresce para um dance metálico inédito que incomoda, definindo bem a essência do grupo. Já em “Love It If We Made It”, o grupo utiliza o instrumental doce que já nos encantou nos primeiros discos para justapor os vocais angustiantes de Healy e os versos que nos guiam pelas tragédias da atualidade, como Trump, Kanye West e Lil Peep. Se destacando por versos como “Consultation. Degradation. Fossil fuelling. Masturbation. Immigration. Liberal kitsch. Kneeling on a pitch”, a faixa prova ser uma colagem amarga, pessimista, dolorosa porém sensata e realista ao extremo sobre o mundo em que vivemos.


Um dos grandes tesouros do disco, portanto, fica a seguir com a deslumbrante balada “Be My Mistake”. Essa preciosidade acústica traz vocais limpos de Matt Healy em uma das performances mais desoladores e vulneráveis do vocalista. Em versos brilhantes como “You do make me hard, but she makes me weak”, a canção traz texturas de solidão e culpa em um contraste intenso e melancólico entre os dois grandes pilares do relacionamento: luxúria e amor. Mais uma vez, a banda mostra o quão degradante um lance casual pode ser. 

É deixado um clima sombrio até que o soul e o jazz cheio de classe de “Sincerity Is Scary” chega para iluminar nosso coração. Em tom despojado e positivo, The 1975 aponta o dedo para todos que usam a ironia para mascarar os nossos pensamentos e sentimentos reais. Quem nunca usou o famoso sarcasmo para não se mostrar vulnerável, não é mesmo? É disso que a música fala!


Logo, com um instrumental influenciado pela Trap Music, The 1975 agora nos surpreende em “I Like America & America Likes Me” com vocais angustiantes, como um verdadeiro hino “cry for help” onde Matt Healy transborda ansiedade e revela o medo de morrer ao criticar também a legalização das armas, se posicionando politicamente muito bem como sempre faz. Essa é, inclusive, já uma das favoritas da galera.

“The Man Who Married a Robot/Love Theme” é o grande resumo do álbum. Trata-se de uma faixa completamente falada pela voz de um robô, como se fosse a Siri. Ele conta a história de um homem solitário que se apaixona pela internet e a leva para todo lugar. Se identificou? Pois é, a música diz muito sobre todos nós e nos deixa um vazio por dentro, principalmente por dizer tanto sobre como nos relacionamos hoje em dia. É como um episódio de Black Mirror que te deixa mal ao fim. Utilizando os mesmos artifícios que Radiohead usou em Ok Computer, The 1975 constrói uma alegoria deprimente sobre solidão, vício e relacionamento intermediado pela tecnologia. Incrível.

Com o passar do disco, você vai encontrando elementos do amor, porém sempre distorcidos por uma série de justaposições e confusões que dizem muito sobre a pós-modernidade. Isso é claro na balada psicótica “Inside Your Mind”, em que o mais puro sentimento se mistura com o mórbido e intenso sentimento abusivo que acompanha as relações hoje. O ápice dessa intermediação acontece em “It’s Not Living (If It’s Not With You)”, onde, apesar dos instrumentais tão cheios de vida, apresenta o vício por heroína como uma grande história de amor. Mesmo sendo um dos momentos mais dançantes, não deixa de ser um episódio intenso, sincero e drástico. Não é à toa que a mesma nos leva para “Surrounded By Heads and Bodies”, uma música empoeirada, em um clima fim de festa, onde Matt Healy conta sobre Angela, sua parceira de reabilitação, o único lugar onde essa história toda poderia dar.



E seguindo uma linha cronológica, chegamos no fim do álbum, onde a esperança é multiplicada e substituída pelo caos da primeira parte. Exalando maturidade, a banda surpreende com “Mine”, destacada por um piano sofisticado e um jazz encantador que dá vida à faixa, enquanto Matt Healy se entrega por completo à mais pura forma de amor, aquietando os devaneios que o assombravam: “There comes a time in a young man's life, he should settle down and find himself a wife. But I'm just fine 'cause I know you are mine”. Essa música acalma e ilumina a temática pesada do disco da melhor forma. E o mesmo é replicado na intensa e apaixonante “I Couldn’t Be More In Love”, um grande tesouro Soul Power que promete trazer muita gente aos prantos.

Para fechar esse brilhante trabalho, temos “I Always Wanna Die (Sometimes)”, que já é uma das queridinhas dos fãs. A faixa transborda britpop à la Oasis, como a banda nunca tinha feito antes. Ela traz consigo uma vibe cinematográfica e empoderadora onde Matt Healy combate seus pensamentos suicidas em um instrumental iluminado e crescente. Uma obra tão importante como A Brief Inquiry Into Online Relationships merecia um final honesto, reflexivo e épico como essa maravilhosa canção. 

O disco é um grande livro aberto para nos fazer refletir sobre o quão alienados, inseguros e frágeis nós somos diante de nossas construções sociais. Mais uma vez, The 1975 criou experiências estéticas incomparáveis com suas músicas, fazendo exatamente o que torna um artista bom: absorver os valores da sociedade no tempo e espaço atual, elaborando uma releitura expressiva, brutal e crua da humanidade. Genial!

Lembrando que a banda estará na edição 2019 do Lollapalooza Brasil em abril. Mal podemos esperar para conferir toda essa obra ao vivo!