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Lana F*cking Del Rey de volta à corda bamba entre a tristeza e a felicidade com seu novo álbum

Lana Del Rey está de volta com seu quinto trabalho de estúdio - o maravilhoso, envolvente e um tanto quanto triste, Norman Fucking Rockwell! O registro é fruto da parceria entre Lana e Jack Antonoff (ex-integrante do fun. e do Bleachers) na produção, e a mostra com uma sonoridade mais crua, porém com letras ainda mais viscerais capazes de partirem os nossos corações. Não espere ver aquela Lana Del Rey feliz da vida o tempo todo como vimos em Lust for Life. A nova produção nos remete, em muitas partes, àquela artista que escutávamos nas épocas dos imortais Born to Die e Ultraviolence

O disco abre seus trabalhos com a faixa título do álbum, que está diretamente ligada com as duas seguintes. Com "Norman fucking Rockwell", Lana nos descreve estar em um relacionamento com um poeta imaturo e mal sucedido. No refrão melódico dessa poderosa balada, em meio a violinos e um piano, fica claro que a tristeza do artista a contagia. "Mariners Apartment Complex" dá continuidade à narrativa desse conturbado relacionamento, e deixa claro que ela é o porto-seguro emocional desse relacionamento, agora com ajuda de guitarras e sintetizadores, marca registrada de Jack Antonoff.


"Venice Bitch" vem para mostrar sua completa devoção por seu amor. “Paint me happy in blue, Norman Rockwell” é outra deixa para entendermos que ela ainda está falando da mesma pessoa das duas canções anteriores, e agora sabemos que a narrativa se passa na Califórnia, revelado tanto pela parte lírica quanto pela sonoridade. E por falar em sonoridade, a faixa é a mais ambiciosa do álbum inteiro - contendo mais de 9 minutos, com direito a longas partes instrumentais que misturam guitarra, violão e sintetizadores. Se antes tínhamos alguma dúvida que Lana estava envolvida com seu amigo Jack Antonoff nesse projeto, agora não temos mais. Esse início com 3 músicas extremamentes melancólicas já nos introduz sobre o que será esse novo álbum.

Em "Fuck it I Love You", Lana entrega sua melhor performance vocal do álbum, misturando sua voz entre os instrumentos e nos fazendo estar em transe, enquanto ela se lamenta por estar perdidamente apaixonada. Essa música e "the greatest" formaram um lindo vídeo-clipe duplo, o primeiro envolvendo grande produção nessa era. Nessa segunda, voltamos no tempo. A canção chega a ter uma sonoridade mais leve e alegre. O saudosismo californiano, com direito a um poderoso solo de guitarra, é pano de fundo para a crítica que Del Rey propõe nessa canção: nos distraímos com as coisas fúteis ao nosso redor, enquanto há coisas realmente importantes acontecendo no mundo real. Alfineta Kanye West, faz referência a Bowie e nos deixa essa linda canção como um alerta para acordarmos para o que realmente importa - "don’t leave, I just need a wake-up call”.


A quinta música é a mais diferente do álbum todo e não é por acaso. "Doin' Time" é na verdade um cover da banda Sublime e com certeza é um dos pontos altos do álbum. A faixa é a única que não foi composta pela Lana, e era uma das poucas faixas que conhecíamos antes do lançamento de todo o álbum. Ainda bem que ela manteve essa faixa no álbum! A vibe californiana herdada pelo Sublime a fez ser a canção mais comercial de todas, e com uma ajudinha de divulgação da gravadora, pode ser o grande hit dessa fase.

Em "Love song", os instrumentos dão espaço à voz de Lana, que pinta as melodias como já sabemos que ela é capaz, enquanto mostra seu amor incondicional e ao mesmo tempo parte o nosso coração. Não bastasse nos deixar para baixo, "Cinnamon Girl" eleva a potência da tristeza, e vem como um chute na nossa barriga. Com instrumentais sutís, Lana está agradecendo o seu amado por ser a primeira pessoa que amou sem abusar mentalmente dela. “But if you hold me without hurting me, you’ll be the first who ever did” nos faz entender a tristeza nas composições auto-biográficas da artista, e agora sabemos de onde veio aquele clima pesado presente no início da carreira.

"How to disappear" nos mostra o caráter auto-biográfico e lúdico de Lana: enquanto fala de passagens de sua vida, como sua mudança de Nova Iorque para a Califórnia, ela também escreve sobre o que espera para o futuro com quem ela ama, pronta para viver seu sonho americano. A sonoridade retrô dessa música nos faz ter um breve flashback, e não é à toa que a faixa está neste álbum. Norman Rockwell foi, na verdade, um pintor americano do início do século passado que comumente ilustrava o sonho americano. A faixa "California" nos entrega o que a cantora tem de melhor a nos oferecer: o uso de várias bases da sua voz funcionam como um instrumento para guiar a maior balada do álbum. Assim como em "How  to disappear", a sonoridade de "California" nos transporta instantaneamente para uma narrativa ambientada nos Estados Unidos.

Já em "The Next Best American Record", o sonho americano planejado continua. Essa fixação pelo sucesso não é diferente do que já vimos em outras composições da cantora, como em "Money Power Glory" e "Fucked My Way Up to the Top". Como vimos no decorrer de sua carreira, Lana é ambiciosa e uma bon-vivant, alguém que quer gozar do melhor da vida. A perseguição pelo sonho americano até nos faz esquecer que estávamos sentindo, até pouco tempo, a dor dos sentimentos de Lana como se fossem os nossos. Mas isso muda nas últimas três músicas.



De novo acompanhada só com sua voz e piano, "Bartender" serve como crítica aos paparazzis que a cercam e não a deixam viver um momento de paz. Em certas partes, podemos ouvir “bar-t-t-tender”, o que pode ser o som de flashes destes fotógrafos que a perseguem. “Baby remember, I’m not drinking wine, but that Cherry Coke you serving is fine” é outro aspecto auto-biográfico presente no álbum. Dessa vez confrontamos o passado da cantora, quando ela abusava do álcool ainda com pouca idade. 

Engana-se quem acha que "Hapiness is a buttlerfly" vai ser uma música alegre por conta de seu título. Na verdade Lana está tão machucada que nada mais pode feri-la. A felicidade é aquela borboleta que tentamos pegar com as mãos e sempre nos escapa. Essa música nos remete a alguém que tenha desistido de ser feliz de novo. Novamente, só com piano e voz, a música acaba com uma esperança desprentenciosa de perspectiva de qualquer melhora.

Por falar em esperança, o álbum acaba com "hope is a dangerous thing for a woman like me to have - but I have it", a terceira faixa seguida somente com piano. A música desmente o que a Lana de "Hapiness is a butterfly" estava nos contando. Ainda que em meio a tanta melancolia, Lana Del Rey consegue ver que existe alguma luz no fim do túnel.

O quinto registro de estúdio de Lana nos apresenta uma artista que agora transita entre sentimentos felizes e tristes. Sem mais 8 ou 80. A produção, ainda que mais crua do que seus trabalhos passados, e muitas vezes com poucos instrumentos, está longe de ser considerada rasa. Com Norman Fucking Rockwell!, Lana Del Rey nos ensina que é possível ser intenso sem muita extravagância.