Uma obra profunda em sua composição e pungente em sua musicalidade. Piss In The Wind consolida Joji como um dos artistas mais audaciosos da música alternativa atual. Entre texturas de melancolia e introspecção, o disco acerta em cheio ao propor uma experiência imersiva, quase cinematográfica.
O quarto álbum do cantor japonês funciona como uma viagem terapêutica por suas vulnerabilidades, contradições e obsessões emocionais. Ao longo dessa jornada, somos confrontados com a repetição de ciclos afetivos, o desgaste de insistir, de se iludir, e a sensação constante de iniciar uma batalha contra o invencível. O que torna disso tão interessante é ver que Joji não tenta organizar o caos. Ele o veste como um manto.
O próprio título é a chave conceitual de toda a obra. A expressão piss in the wind significa fazer algo mesmo sabendo que será inútil. Um esforço que não só não muda nada, como volta contra você. No universo de Joji, essa imagem se transforma em metáfora para relacionamentos e apego emocional. É um disco sobre amar demais, insistir demais e perceber tarde demais. É um eterno dilema de autossabotagem emocional.
Em “PIXELATED KISSES”, “If It Only Gets Better” e “Love You Less”, Joji explora o território da doação afetiva unilateral. São músicas que falam sobre entrega excessiva e a frustração de perceber que não há um retorno com a mesma intensidade. E não conseguir recuperar o controle da situação é sua maior prisão.
Essa sensação de aprisionamento ganha contornos mais explícitos em “Hotel California”. Quanto mais ele tenta entender ou dominar o cenário ao redor, mais clara fica a dificuldade de romper o ciclo de dependência emocional.
Desse sentimento também temos derivações em “Past Won’t Leave My Bed”, “Piece of You” e “Last of a Dying Breed”, faixas tomadas por uma melancolia silenciosa, quase apática, de alguém que agora já aceitou a perda. A luta chegou ao fim. Não porque houve vitória, mas porque não resta tanta força para continuar tentando. São ondas de conformismo que se chocam na rigidez das rochas que antes tentavam desafiar o impossível.
Já “Silhouette Man” aprofunda sua busca por identidade, após entender que tem que achar seu norte dentro de si mesmo. Apesar de curta, a faixa é um dos pontos altos do disco.
Há um cansaço explícito nessas últimas faixas. Mas porque não dançar conforme o ritmo do vento? É o que a animada “Sojourn” sugere. É uma faixa apaixonante sobre encontrar a sua força de ter esperança e simplesmente viver a vida com todas as suas cores e intensidade. Um dos momentos mais solares e necessários.
Por fim, com Piss In The Wind, Joji entrega um álbum profundamente humano, que encontra beleza no desgaste emocional, na repetição e na aceitação amarga de certas derrotas inevitáveis. É um disco sobre amadurecer emocionalmente e continuar tentando evoluir diante das complexidades da vida e suas relações.
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