Years & Years propõe uma discussão de gênero e de sexualidade em clipe de “Desire”


Por que é importante discutir identidade, gênero e sexualidade no cenário social atual e como a banda está ajudando o movimento LGBT+ ao dar o devido espaço aos grupos mais marginilizados para serem representados na mídia?

Esta não será mais uma review usual do blog e adianto que quero aproveitar o espaço para falar sobre coisas realmente importantes. Sempre admirei muito o trabalho do Years & Years e o modo como a banda expressa seus sentimentos e opiniões através de suas letras e, principalmente, de seus vídeos. Todos eles são carregados de mensagens e de uma teatralidade que leva o espectador para além dos monitores, em uma interação indireta com tudo aquilo que foi visto. Assim como acontece nos melhores filmes, o produto deixa de ser apenas um produto e se torna um exercício de questionamentos internos que visam formular um determinado significado, deixando toda a experiência semiótica e muito mais incrível.

Desde sua estreia no cenário musical entre o fim de 2014 e o começo de 2015, o trio deixou muito claro que eles não seriam apenas mais uma banda indie pop qualquer. Eles sempre foram engajados em causas sociais e Olly Alexander, o vocalista, nunca escondeu sua sexualidade para a mídia com medo do apagamento que tantos sofrem no ramo artístico. Obviamente que o rapaz foi beneficiado por ser branco, já que infelizmente a simetria não existe e ele não teria todo o reconhecimento que tem se fosse um cantor negro e homossexual, mas isso não invalida sua luta e acredito que caminhamos, ainda que a curtíssimos passos, em rumo à igualdade – para se usar uma palavra otimista. Aproveitar da fama para dar visibilidade a quem não tem quase nenhuma é uma ótima iniciativa para o momento em que vivemos, por isso a importância de Desire.

Antes de analisarmos o clipe de fato, precisamos colocar alguns conceitos e informações que nem sempre são claros para todos e que, na verdade, deveriam ser. Vivemos em uma sociedade que insiste em nos classificar em gêneros binários, mais especificamente homem e mulher, atribuídos conforme as características biológicas com as quais cada indivíduo nasce. Evidentemente, essa divisão não é suficiente para definir alguém, uma vez que o psicológico está diretamente atrelado a tudo isso e é aí que entram as identidades de gênero e a orientação sexual. A experiência humana naturalmente constitui o ser como sujeito social e molda suas atrações e identificações, que nem sempre vão de acordo com o padrão imposto. Opostamente à cisgênera, uma pessoa transgênera é aquela que se identifica com o gênero diferente do qual diz a biologia, sempre transitando de um para o outro, como Drag Queens, diferente da transexual, que deseja viver permanentemente no sexo oposto.


Agora, sim, ao vídeo de Desire. Começamos com um Olly cisgênero, sem rumo e de expressões confusas, que é encontrado por um grupo de pessoas dispostas a leva-lo para um lugar onde ele finalmente se encaixará. Aqui, as metáforas já começam a aparecer, e ao chegar, o rapaz se depara com um indivíduo que é a representação da mistura de todos os gêneros com os quais o ser humano pode se identificar. É a partir desta figura que Olly passa a conhecer um universo alheio à superfície terrestre, onde estão inseridas todas as identidades marginalizadas pela sociedade, numa espécie de subsolo. Entre as pernas da figura, porque é o local em que supostamente se define o sexo de alguém, mas ao invés de um órgão, ali só há luz, como uma passagem para o único lugar em que podem ser o que quiserem, livres de qualquer tipo de rótulo, julgamento ou apego físico.

Tudo funciona como uma analogia para o descobrimento da verdade, do mundo fora dos padrões difundidos e enfiados goela abaixo a todos desde o nascimento, de certos e errados, etiquetas para reconhecimento ou renegação. É a celebração do sexo, dos prazeres fora da heteronormatividade, da voz aos transgêneros, transexuais, andróginos, não binários. Ao fim do clipe, pode-se concluir que ali todos são tudo e nada ao mesmo tempo; são a própria mistura de todos os gêneros, mas também estão livres de qualquer nome, justamente por serem todos iguais, como uma unidade só. É tudo muito lindo e inspirador e é isso que particularmente me motiva a estudar o meio audiovisual.

Em uma carta aberta postada nas redes sociais da banda, Olly ainda comentou sobre o significado do vídeo para ele, como artista e como ser humano: “A maioria dos vídeos pop que apresentam uma interação entre homem e mulher são geralmente centradas em um romance, e isso é ótimo, sou totalmente a favor de romance, mas vamos combinar que existem muitas outras sexualidades e identidades que merecem muito bem um vídeo pop com brilho e amor”. Para conferir o depoimento na íntegra, clique aqui.

Ps: Tove Lo fez uma ótima participação na música e adoro quando o feat não se trata apenas de um ctrl+c e ctrl+v no meio da faixa, mas senti falta da moça no clipe. Ela acrescentaria muito mais visualmente, especialmente se tratando de um tema em que a cantora sempre discute amplamente e o faz muito bem. Uma fofa!

Ps2: Desculpem pelo post enorme, mas senti precisava e espero ter feito a minha parte. Sintam-se livres para concordarem, discordarem ou me corrigirem nos comentários se falei alguma bobagem. É isso aí e love yourself no matter what! <3