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Saiba o que esperar de Melanie Martinez no Lollapalooza 2017


Das surpresas do Lollapalooza para os shows de 2017, Melanie Martinez foi de longe a que mais me motivou de imediato a ir ao festival. E não é por menos, já que os trabalhos que a cantora vem realizando desde que estourou no The Voice são de encher os olhos de quem admira um bom e muito bem explorado conceito narrativo audiovisual.


Por incrível que pareça, o nome de Melanie já pipocava bastante na internet na mesma época em que grandes cantoras como Lana del Rey e Lorde lançavam seus primeiros sucessos e popularizavam o segmento indie-pop. Contudo, diferentemente destas, seu reconhecimento não teve um boom exatamente definido, mas continua crescendo exponencialmente à medida em que seu primeiro álbum Cry Baby ainda vem sendo muito bem aproveitado. Tudo o que a garota faz é extremamente calculado e preciso para fazer sentido à mensagem que ela quer passar, do modo como quer passar, seja nos singles, nos clipes, nos shows ou nas promos; qualidade que, infelizmente, não se vê na grande maioria dos artistas dessa geração.

Caracterizado como um visual concept album, o Cry Baby foi lançado para funcionar de modo que cada faixa do álbum tivesse seu próprio vídeo e que os dois se completassem como um só – similarmente ao que Beyoncé vem fazendo em seus álbuns. As faixas seguem uma linha narrativa que conta as histórias de Cry Baby, personagem fictícia que representa as experiências de infância e de adolescência da própria Melanie, como uma autobiografia fantasiosa. Ao meu ver, o mais genial do conceito aplicado é o fato de que a cantora se utiliza de metáforas com temáticas infantis para traçar um paralelo com situações da vida adulta, que vão do mais cômico ao mais trágico, mas igualmente brilhantes do ponto de vista artístico. E tudo isso é embalado por um som de pegada eletropop com elementos do trap e do hip-hop e incorporando outros sons lúdicos próprios de criança.

A primeira música autoral produzida por Melanie é também a que melhor nos situa no universo fantasioso de Cry Baby e, mais especificamente, na dificuldade de viver em meio à sua famigerada família tradicional brasileira da moral e dos bons costumes, quando, na verdade, todos eles vivem por trás de máscaras que escondem suas falhas e que os permitem apontar dedos para quem foge do mesmo padrão – ela mesmo, no caso. Dollhouse é muito importante também porque nos coloca a par daquela que talvez seja a maior crítica do conceito do álbum: a sociedade hipócrita de aparências e julgamentos em que vivemos, que nos ensina desde crianças a agir pensando no próprio umbigo em detrimento do amor ao próximo, e que consequentemente acaba justificando todos os nossos problemas quando adultos.


Se Dollhouse nos introduz ao seu universo, Cry Baby nos leva ao nascimento da própria Cry Baby e de sua personalidade extremamente emotiva. A faixa foi a que me conquistou de imediato e que me instigou a ir atrás do restante do álbum, acredito que por definir bem uma identidade sonoridade específica que apela para um público que curte o pop fora da caixinha e que também identifica seus próprios sentimentos na letra. No vídeo, novamente temos a figura materna que contribui para um sentimento de reclusão e de renegação por parte da garota. A mãe, além de não demonstrar nenhum tipo de empatia pela filha, ainda reprime seu desejo de demonstrar sentimentos e a deixa sozinha com seus demônios em figuras de brinquedos. E ao se negar a viver uma realidade de repressão, Cry Baby molda uma força interna para poder lidar com todos seus problemas de maneira autossuficiente.


Por mais alternativo que seja, nenhum álbum pop vive só de críticas, e canções sobre o amor são inevitáveis em algum ponto. Como uma grande mente criativa, Melanie optou por explorar a temática juntando duas de suas músicas num curta-metragem, que não poderiam ser melhor escolhidas, já que Soap, minha faixa preferida da cantora, conversa perfeitamente com Training Wheels e o vídeo acaba funcionando muito bem. As duas metades representam a dualidade de sentimentos que existem dentro de um relacionamento: o medo de sofrer ao se entregar completamente e a paz de estar com quem se ama. É assustador e reconfortante, só quem já passou sabe como é e pode se relacionar. Soap se destaca muito no álbum por sua composição; seu drop é sensacional com sons de bolhas definindo o clímax da música à la Dark Horse, e se você chegou até aqui, não tem mais volta, já está conquistado.


O melhor clipe vem também com o single de maior apelo comercial de todo o Cry Baby e eu não poderia encerrar o post de forma mais eficiente. A direção de arte de Pity Party é tão maravilhosa que fica impossível fazer qualquer crítica a este capítulo da vida de Cry Baby. Eu adoro como Melanie consegue fazer essa personagem cute-psychopath ser tão carismática que todos conseguem se relacionar com ela e com suas trágicas experiências de vida, como esta festa de aniversário em que ninguém apareceu. Aqui a garota é minha spirit animal fingindo que está tudo bem quando tudo ao meu redor está um caos, rs.


Há muito o que se falar sobre o Melanie Martinez e seu primeiro álbum Cry Baby, pois cada faixa é única e repleta de significados incríveis e pessoais da cantora que rendem grandes análises, mas não posso me alongar tanto e deixo essa missão pra vocês. Não é segredo que recomendo fortemente acompanhar todos os trabalhos da cantora e fazer aquela busca por suas performances em festivais, que mantém o nível de qualidade técnica e artística do álbum de estúdio e nos leva um pouco ao mundinho agridoce de Cry Baby. Não espero nada menos que um showzão nesse Lolla e encontro quem mais estiver disposto de sacrificar o The Weeknd na noite.

Ps: Drinking game pra cada vez que ler “Cry Baby” neste texto.

Ps2: Por tratar de uma linha narrativa, a ordem cronológica dos clipes pode ser entendida exatamente pela ordem em que estão no álbum: Cry Baby - Dollhouse - Sippy Cup - Carousel - Alphabet Boy - Soap - Training Wheels - Pity Party - Tag, You're It - Milk and Cookies - Pacify Her - Mr. Potato Head. Só fica faltando o clipe de Mad Hatter pra encerrar essa era com chave de ouro.

Ps3: Que horário maldito em que colocaram a garota nesse Lollapalooza, hein produção?