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Lorde constrói ambiente intimista diferente de qualquer outro em seu novo disco


Não é de hoje que Lorde vem impressionando tanto! A cantora neozelandesa já deixou muitos queixos no chão com seu estilo despojado e seu som obscuro desde a época de “Royals”. E agora, após ficar um bom tempo longe dos holofotes, Lorde mergulha em águas muito mais profundas e intimistas em seu segundo álbum, Melodrama. Você nunca viu ela desse jeito!

Em 2013, no meio de nomes exuberantes da música pop como Katy Perry e Miley Cyrus, surgia, da Nova Zelândia para o mundo, uma cantora tímida, porém com uma personalidade forte o suficiente para conquistar o mundo com a sua naturalidade tão enigmática, sinistra e completamente descontruída de valores mainstream. Não demorou muito para que Lorde dominasse as paradas com “Royals” e, em seguida, com seu disco de estreia, Pure Heroine. No meio de tanto glitter e festa demasiada, Lorde era o patinho feito no meio de um buraco negro, e talvez foi isso que chamou a atenção do público e dos críticos. De alguma forma, só é interessante pensar como uma novata introvertida, que cantava sobre não querer fazer parte da realeza, conseguiu desbancar veteranas da Indústria, ganhando ironicamente o seu trono no mundo da música, ela querendo ou não.
Desde que ela conquistou seu espaço, porém, Lorde se afastou um pouco dos palcos e da mídia e nota-se agora que, com o seu comeback para o segundo álbum, a cantora só evoluiu. Melodrama marca nitidamente a maravilhosa transição de uma jovem para sua fase adulta, em que Lorde faz uma viagem de questionamento e autoconhecimento de seus reais valores e convicções, mesmo em tempos turbulentos.

A cantora vai de encontro com seu verdadeiro eu, trocando o seu foco do trip pop alternativo do Pure Heroine para usufruiu de sua longa gama de influências do pop moderno oldschool, trazendo muita consistência e inovação para o mercado musical atual. Ela vai de Kate Bush à Robyn sem encontrar dificuldade alguma. A arte envolve a cantora como nenhuma outra artista atual. Lorde espalha multiplicidade em seu álbum de um jeito completamente inusitado e ainda muito coeso, incorporando cada influência para expressar e fluir cada sentimento, por mais profundo que seja. Melodrama amarra autenticidade, diversidade e muita emoção como nenhum outro lançamento deste ano.

E como um álbum consegue ser tão especial e fortalecer a figura tão emblemática de uma cantora? Bom, essa é fácil de responder. Diferente de muitas cantoras nessa idade, no Melodrama, Lorde simplesmente joga a verdade nua e crua e não romantiza o cotidiano do jovem. Suas letras são bem mais construídas do que as de vários ídolos teen, que insistem em cantar sobre o mundo superficial de festas, príncipes encantados e corações partidos, estacionando aí, sem expandir grande complexidade. Raramente fogem disso. A neozelandesa, no entanto, parece não ligar para o imperativo do gozo midiático ou se importar fugir das idealizações de felicidade impostas. Lorde quer simplesmente um jogo limpo, e se é pra expor seus pensamentos mais individuais em suas músicas, ela vai fazer. E mais do que isso: ela vai se entregar por completo. Cada palavra é muito carregada de honestidade. Este álbum grita o tempo inteiro a transparência da acidez de conflitos mal resolvidos. É muito mais do que um romance. Melodrama é uma jornada intensa e muito temperamental de puro autoconhecimento.

Tudo fica ainda mais interessante a partir do ponto de partida de pensar que a storyline do álbum se passa numa house party, assim como Lorde afirmou em algumas entrevistas. Sim, o Melodrama inteiro se passa numa festa, tornando a consistência do material ainda mais intricada. Após um coração partido, a cantora teoricamente tenta esquecer seus problemas e se anestesiar na vida boêmia jovial em uma house party, porém pouco a pouco, no meio de tanto espetáculo, Lorde se encontra completamente sozinha e exausta mesmo estando rodeada por gente e por diversas ofertas de prazer. É apenas fantástico ouvir e assistir mentalmente à cantora assumindo todos os seus sentimentos e achando a sua verdade interior, enquanto muitos ao seu redor perdem a cabeça para impressionar e chamar atenção. 


Melodrama começa com Lorde após o seu primeiro coração partido, exalando rebelião na letra e em sua performance vocal. A partir do momento em que o piano dramático de “Green Light” explode em uma mistura de synthpop bem amistosa e arisca, fica claro que a cantora dá uma segunda chance, não para o seu ex parceiro, mas sim para si mesma. A festa começa aqui, com um shot de determinação e maturidade, que faz com que uma nova Lorde floresça. E esse clima extravagante de batidas extrovertidas dá luz às faixas seguintes. Em “Sober”, a cantora faz completa imersão na festa, citando bebidas e entorpecentes, porém mantendo sua classe de um jeito bem dançante e triunfal, principalmente com os trompetes que se espalham pela faixa em um manto de puro glamour.  Isso só se amplia com “Homemade Dynamite”, faixa co-escrita por Tove Lo que poderia ser mais um grande hit de Nelly Furtado e Timbaland. A música traz ao Melodrama um lado completamente luxuoso de Lorde, apresentando até muita sensualidade, como nunca esperávamos ver da cantora. E, depois de muita festa, tudo se concretiza na doce “The Louvre”.

No começo do álbum, Lorde mantém um lado curioso mais dançante e extrovertido, colocando em cheque aquela teoria de seu diferencial em relação às outras cantoras pop. Porém, o mais interessante é que a neozelandesa não fica só nisso. Ela usou este começo de animação abundante para chegar em uma crítica e oposição às demais, fazendo com que a gente fosse além da ponta do iceberg. Após de muitas batidas frenéticas, “The Louvre” carrega consigo um ritmo mais romântico, em que Lorde expõe brilhantemente suas emoções e como elas são apresentadas e absorvidas na indústria musical. Ela compara seus sentimentos com obras de arte que são expostas no Museu do Louvre. Percebe-se muito bem isso no trecho “Brodcast the boom, boom, boom, boom and make ‘em all dance to it”, em que a cantora conta como faz arte de seus sentimentos / batimentos cardíacos acelerados (“boom”). E é exatamente essa a proposta do Melodrama. É por este motivo que o disco é tão forte, construindo uma identificação surreal com o público. Apesar das letras fortes do Pure Heroine, Lorde nunca havia se entregado tanto às suas emoções, e não há nada mais puro e especial do que isso.

Finalmente, depois de um tempo, Lorde desloca toda a sua mente da festa e embarca em uma profunda reflexão sobre sua vida, despida de qualquer máscara, em “Liability”. Este é o momento de mais destaque do álbum. A faixa rouba a cena com sua delicadeza extraordinária que congela o álbum numa completa solidão num ambiente bem íntimo, porém de muita luz.  Essa música é definitivamente uma das melhores lançadas em 2017. E, continuando numa atmosfera mais pessoal, Lorde viaja por batidas distorcidas em “Hard Feelings”, até que ela se desloca para agitadas e confusas batidas eletrônicas que servem de cenário para a cantora fazer uma grande crítica ao amor e sua respectiva decadência na geração atual.


E chegando ao fim do túnel amargo do álbum, nos deparamos com um clima extremamente pesado em “Sober II (Melodrama)”, com direito à violinos dramáticos e estrondos fortes que soam como tiros. Fica claro aí que a festa está no fim, com copos jogados por todos os lados e tudo mais. É claramente a ressaca em forma de música. O grande ápice de toda essa linha áspera só acontece, porém, na sombria “Writer In The Dark”. Nessa parte, a voz de Lorde raspa e se fragiliza em uma superfície de melancolia profunda enquanto ela lamenta e revela que irá guardar o seu amor pelo ex para sempre, mesmo que continue seguindo em frente. Sua voz derrete ao longo da faixa, fazendo com que a gente sinta o amor escorrendo por suas mãos. É o momento de maior tensão do álbum. 

Por fim, Lorde volta com o ritmo harmonioso e romântico em “Supercut”, enquanto a mesma se reconstrói para o grande final. Ela chega até trazer uma reprise de “Liability” com batidas mais agitadas. Juntas, essas duas faixas constrói o clímax ideal para um encerramento brilhante em “Perfect Places”. A última música do álbum fecha o álbum com chave de ouro, celebrando a juventude por completo, com seus prós e contras. Lorde finalmente aceita todos os seus lados, fazendo alusão à todos os prazeres momentâneos de sua vida, incluindo bebidas, drogas e sexo. Desse jeito, inesperadamente, a cantora se levanta e deixa mensagem final do Melodrama: aproveite a vida, porque a festa ainda não acabou!


O Melodrama é um disco diverso, com diferentes momentos e emoções, que orbita por incertezas, impulsos e erros. E mesmo com tantas desavenças, Lorde consegue dar a volta por cima e se achar em uma posição de assumir todas as suas cores. É como se a cantora de Pure Heroine tivesse feito tudo que um dia ela jurou não fazer e agora ela teve que lidar com a reação de tudo isso. O segundo álbum da cantora é um material maravilhoso que exala metamorfose e maturidade em cada palavra e em cada batida. Talvez este seja o maior dom de Lorde: transformar tragédia em obra prima.