Itaipava De Som a Sol

Materialismo das composições de “Beerbongs & Bentleys” ofusca o talento de Post Malone


Depois do sucesso de hits como “Congratulations” “I Fall Apart”, o artista multiplatinado Post Malone se tornou um dos maiores nomes do Hip Hop atual, mas será que com seu segundo disco, Beerbongs & Bentleys, ele continuará a fazer história?

O disco que sucede o sucesso estrondoso de Stoney, o debute do cantor, contém 18 faixas no total. Muita coisa, né? Pois é, talvez nosso querido Post Malone tenha esquecido de fazer uma seleção final das músicas, o que tornou o disco um pouco cansativo. Por outro lado, o cara trouxe parcerias incríveis com 21 Savages, Nicki Minaj, YG, G-Eazy, Ty Dolla Sign e Swae Lee. Sem falar da produção impecável assinada por Frank Dukes, London On Da Track, Scott Storch e muitos outros. Disso não podemos reclamar, de fato. 

O cantor trouxe tantos hits nos últimos anos que a expectativa para esse álbum estava imensa, ainda mais depois de um álbum tão bem amarrado como o Stoney e o carro-chefe de sucesso "Rockstar". Não é à toa que o álbum estabeleceu um novo recorde no Spotify, totalizando 78.744.748 streamings mundiais na sua estreia. Assim que lançou, o pessoal não perdeu tempo e foi ouvir. Mas agora a pergunta que não quer calar: será que toda a espera valeu a pena?


Post Malone chamou muita atenção nos anos passados por sua personalidade tão peculiar. Os próprios representantes da Republic Records, sua gravadora atual, afirmam que ele é o “Donald Trump do Hip Hop”, pelo simples motivo de que alguns de seus discursos poderiam acabar com sua carreira, mas acabaram trazendo a ele ainda mais sucesso. Isso se deu por toda a história de privilégio branco e histórico de apropriação cultural que o cerca. Não é à toa que ele entrou em turnê e fez músicas com Justin Bieber, né? Seu primeiro álbum, apesar de musicalmente ser muito bom, estava longe de ser um material político. Depois de tantas críticas, era de se esperar que Post Malone assumisse um lado mais responsável em seu novo álbum, mas não aconteceu.

O Hip Hop é um movimento político de luta pela inclusão. Todavia, em Beerbongs & Bentleys, Post Malone fica só com a ponta do iceberg do gênero, que se resume a batidas manjadas e letras saturadas sobre fama, sucesso, dinheiro e festas. É um álbum com refrões bem bolados e um flow poderoso? Sim. Não podemos reclamar de suas melodias contagiantes, incrivelmente radiofônicas, nem dos vocais ótimos do músico, algo não muito explorado entre os rappers e cantores do gênero. Mas ainda assim, falta um pouco mais de substância lírica e poética. Com rimas previsíveis e até cafonas às vezes, Post Malone se revela como um compositor não muito bom.

Por outro lado, Post Malone não quis deixar que essa superficialidade das letras atacasse na linha musical do disco.Beerbongs & Bentleys traz batidas tropicais ardentes, sintetizadores R&B, e melodias mid-tempo bem particulares, que contam com instrumentos reais que fazem tudo ter um som mais puro. O rapper continua com o Trap pelo qual nos apaixonamos nos seus primeiros sucessos, porém com uma pegada um pouco mais orgânica, que combina muito bem com seus vocais roucos.

“Tem muita coisa no disco. Eu toquei mais guitarra, assim como trouxe alguns toques de bateria ao vivo. Musicalmente, ele tem uma grande expansão e eu acredito que tudo isso se mistura de um jeito estranhamente perfeito que me faz crer que vai ser um dos melhores álbuns do ano” – Post Malone

De fato, o experimentalismo musical de Post Malone ficou nítido em algumas músicas. “Over Now”, um dos grandes destaques do álbum, traz o músico tocando guitarra, enquanto Tommy Lee, do Mötley Crüe, arrebenta na bateria. A faixa traz uma fusão de dois mundos, que colidem e explodem em um encontro icônico. “Stay”, além de ter uma das únicas letras de qualidade do álbum, também surpreende pelo seu momento intimista, acompanhado de um violão que nos leva para outra atmosfera. É aqui, nesse momento amargo, porém sincero, que vemos o real talento do músico. Aliás, a faixa nos deixa um gostinho de “quero mais”. Não reclamaríamos de um projeto stripped down, Mr. Malone. “Paranoid”, por sua vez, nos traz para perto de Post Malone, com um som simples, cru que embala o músico para se soltar de um jeito mais genuíno do que nas outras faixas.  Outra que encanta por sua inovação é “92 Explorer”, faixa que conta com efeitos sonoros bem singulares.

Pequenos momentos do discos como esses citados fazem até nos esquecer da superficialidade predominante no álbum, como “Spoil My Night”, dona da frase “I ain’t even seen her face but she got beautiful boobies” e “Takin’ Shots”, que traz versos bem clichês e cafonas como a rima de “Three suns” com “Threesome”. “Zack and Codeine”“Psycho” e “Sugar Wraith” também não se salvam.


Em Beerbongs & Bentleys, percebe-se uma certa inconsistência na qualidade. Não percebíamos isso no Stoney, porém no novo disco não dá para passar batido, provavelmente por conta da quantidade desnecessária de faixas. É muita coisa. Sua voz é incrível, assim como seu potencial é enorme, porém, apesar de alguns bons momentos, o disco se torna desinteressante e tedioso em sua maioria, principalmente pela temática superficial e rasas de festas, drogas, materialismo e mulheres. Dessa forma, a criatividade no álbum encontra dificuldades para crescer.

Seria interessante, por exemplo, ver Post Malone falando de coisas sérias no seu próximo disco. Porque, do começo ao fim, o músico não convence em nenhum momento de que deve ser levado a sério. Falta um pouco dessa sobriedade e integridade para que o seu trabalho conquiste a gente da mesma forma que Kendrick Lamar e J. Cole nos conquistou. Post Malone já teve sua popularidade no auge, agora é hora de refinar isso e evoluir. Os próximos anos serão, sem dúvidas, decisivos em relação à sua fama.