Jessie J e o seu retorno surpreendente com "R.O.S.E."

Após ter ficado um bom tempo longe dos holofotes, Jessie J realmente prova seu talento com o seu mais recente projeto R.O.S.E, que se mantém coeso do começo ao fim. Sem dúvidas, é um dos lançamentos de 2018 que mais merecem sua atenção.

Quando Jessie J surgiu em 2010, foi um estouro. O álbum Who You Are, debute da cantora, conseguiu emplacar 5 Top’s 10 e mais 1 Top 20. Além disso, o disco vendeu mais de 5 milhões de cópias mundialmente e rendeu 2 hits em terras norte-americanas ("Price Tag" e "Domino"). A cantora já se mostrava como um monstro do pop.

Com a famosa “maldição do segundo álbum”, Jessie foi pega. Em Alive, pesar dos singles fazerem um pequeno barulho ("Wild" chegando no #5 e "It’s My Party" conquistando o #3), foi tudo fogo de palha e o álbum debutou em #3, mas despencou nas semanas seguintes.

Alive não foi bem recebido e ela passou despercebida pela maioria do público, e ali começava sua árdua jornada em manter-se fiel como artista mas sem perder-se na fama. Se reuniu, portanto, com Ariana Grande e Nicki Minaj numa canção que seria, sem dúvidas, um hit mundial. E foi. #1 no UK e #3 nos EUA, mas a era morreu aí. “Burnin’ Up”, segundo single, falhou em fazer sucesso em qualquer parte do mundo e o último “mini-hit” da cantora veio em 2015, na a trilha sonora de A Escolha Perfeita, com “Flashlight”.

Desde então, ela passou um tempo sumida, tentando se encontrar como artista, como ela mesma disse. 3 anos depois, R.O.S.E é lançado, e é o seu melhor projeto. Não foi feito para fazer sucesso de público. Trata-se de um projeto artisticamente muito bem pensado, dividido harmonicamente em 4 parte, das quais vamos comentar agora. 

REALISATIONS

Todas as partes são incríveis e possuem seus méritos, mas Realisations é o maior destaque do projeto. É uma introdução perfeita que convida o ouvinte a querer saber mais, ouvir mais, se interessar pelo projeto o suficiente para experienciar todas as partes.

Iniciamos com a curta intro “Oh Lord”, que é genial. É ela, nua e crua, falando que não quer mais viver essa vida e portanto está pedindo ajuda às crenças superiores dela. Composta unicamente por ela, brinca com as dúvidas e medos de ser artista na indústria da música como um produto. Mas a sinceridade vem em “Think About That”, canção que deu início a todo o projeto. Jessie contou que estava em estúdio com seu produtor e que ele tocou o instrumental desta canção, e ela xingou ele dizendo que ainda não se sentia inspirada suficiente - ela passou 2 anos sem escrever nenhum tipo de canção, por bloqueio criativo. Como numa enchente, ela começou a improvisar por cima da batida e em alguns minutos teríamos esta canção cheia de atitude, sinceridade e verdades. Seu flow ao longo da canção é agradável e o projeto segue forte ainda em sua segunda canção.


“Dopamine” é, provavelmente, a melhor de todo o projeto. É a que merece mais atenção, por ser tão cuidadosamente e excelentemente composta. Fala sobre nossa sociedade estar viciada na única droga que não podemos comprar: a dopamina, um dos neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer. A canção possui um ritmo cativante e ainda traz uma mensagem genuína no final: a criança falando é seu sobrinho citando o ABC pela primeira vez, dizendo que elas não merecem a crueldade deste nosso mundo.

É aí que entramos na fase final desta parte, com “Easy On Me”. A canção foi inspirada no seu avô, que alguns dias antes de falecer, disse a ela para “não seja tão dura com você mesma” - tanto que podemos ouví-lo ao fim da canção. É o auge da sua fragilidade, onde a cantora pede que tenhamos calma e não sejamos tão duros. Não é uma balada triste sobre isso, pelo contrário: ao mesmo tempo que ela traz vocais tristes e puxados, o instrumental mantém o ritmo coeso do álbum, que se mantém triunfal do começo ao fim.

OBSESSIONS

Obcecada. É isso que essa parte é sobre. “Real Deal” inicia já com mais atitude e menos tristeza, falando que esse amor pode ser o “lance certo”. “Petty” eleva o nível, sendo sobre aqueles “amigos” que temos. Percebe-se até aqui que o disco está cheio de “shades” e verdades sobre pessoas que não trataram Jessie da forma que ela deveria nesses últimos anos, e aqui é o auge dela dizendo que tal pessoa é digna de pena.

“Not My Ex” é uma confissão de insegurança no amor: um relacionamento pode estar em processo de início, e ela sabe que é difícil de lidar, mas que essa pessoa não é o ex dela (que não tratou ela como devia). É surpreendente como o projeto, mesmo dividido em partes, continua coeso como um todo, sem perder a sequência e sem se perder, mostrando a verdade de uma artista que já passou por grandes batalhas, viajando pela força e insegurança de um jeito muito único. Por fim, “Four Letter Word” não é sobre a palavra de 4 letras AMOR, mas BEBÊ. É uma emocionante canção sobre seu desejo de ter um filho e é extremamente calma e cheia de paz.


SEX

Chegamos na parte que fala da coisa mais natural do mundo: o sexo. E isso começa com “QUEEN”, na qual ela diz que ela é bonita, sim, e que não deveríamos nos prender ao que mundo diz sobre o que é beleza. O ritmo muda discretamente e os vocais ficam mais dinâmicos, trazendo uma refrescância no que já é metade do projeto.


“One Night Lover” é a parte triste sobre o sexo: ela não é só uma ficada de uma noite. A canção segue fazendo o que a anterior fez: o ritmo deu uma acelerada junto com os vocais surpreendentes, mas a sonoridade continua positivamente linear. Em “Dangerous”, canção seguinte, o triunfo é a famosa espera: a canção tem instrumentos que dão a entender que é uma canção dançante, quem sabe até meio anos 80, mas isso não acontece… até o segundo refrão. Uma discreta batida oitentista entra no meio e agita, mudando a sonoridade ditada até aqui mas se mantendo dentro da proposta. É um dos grandes destaques e uma das 3 melhores do conjunto sem dúvidas.

“Play” dá continuidade à essa genialidade, com sample da genial “Got to be Real” da inesquecível Cheryl Lynn. Por possuir inserções de uma canção disco, naturalmente esta influência está fortemente presente. Com isso, Sex é um dos melhores conjuntos do quarteto.

EMPOWERMENT

É um ciclo completo, e após tudo, vem o empoderamento. A sonoridade já surpreende com a retrô “Glory”, que possui influências jazz e é totalmente envolvente. A intro “Rose Challenge” torna o clima mais elegante, dando abertura para a emocionante “Someone’s Lady”, uma canção sobre apenas querer ser a madame de alguém. É pessoal, é lindamente composta e surpreendentemente envolvente.

Por fim, “I Believe In Love” é sua declaração de saber que vai ficar bem, porque ela acredita no amor. Aqui, no final, é quando percebemos o quanto a sonoridade foi diversificada ao longo das 16 faixas, mas isso nem foi perceptível, tamanho poder envolvente do álbum. A versatilidade de uma artista se encontra em um projeto poderoso, encerrando da forma mais positiva possível, fazendo com que valorizar o seu trabalho não seja só uma opção.

No final, R.O.S;E é o melhor trabalho de Jessie. Poucos irão ouvir, porque não dão tanto valor à ela como ela merece - pelo menos não como antigamente. Mas temos aqui um projeto tão minuciosamente calculado e ao mesmo tempo tão detalhadamente cru, sincero e real. Jessie pode ter uma personalidade difícil, como ela mesma declara nas canções, mas devemos sempre separar a pessoa do talento. E o talento de Jessie é imperdível.

Você merece ouvir todas, mas caso esteja curioso apenas pela sonoridade...

What Tracks to Keep: "Oh Lord", "Dopamine", "Easy On Me", "Petty", "Dangerous", "Play", "Someone’s Lady" e "I Believe In Love"