A poesia realista por trás de "Adeus, Aurora" - novo trabalho de Supercombo

Acostumados com mostrar a realidade metaforizada nas canções, Supercombo converge poeticamente as críticas diversas com as letras de suas músicas. Inteligentemente preparado, Adeus, Aurora é o quinto álbum de estúdio da banda. Confira conosco o que eles aprontaram dessa vez.

Não é de hoje que vemos que eles amam abordar temas que são muito impopulares nas canções que são uma mistura alternativa de rock. No álbum anterior, Rogério, por exemplo, eles souberam tecer diversas críticas sobre a sociedade e suas influências através de um personagem irônico que mostra um novo lado do ser humano, mais sombrio e obscuro. Desta vez, em Adeus, Aurora, eles trazem uma nova personagem e abordam temas reais e pouco falados pela sociedade. Para entender melhor sobre essa inteligente criação, faremos o faixa-por-faixa mostrando um pouco sobre o que eles quiseram passar e quem é Aurora.

Mas, primeiramente, vamos entender como surgiu Aurora: ela surgiu em uma HQ com roteiro autoral da banda (isso mesmo!!!) e ilustrada por Jean Diaz. Fazendo uma básica sinopse, esse primeiro trabalho literário deles mostra uma personagem cheia de conflitos em busca de se encontrar. Pelo desenvolver da história encontramos referências de outros álbuns anteriores - incluindo o personagem irônico Rogério. Além disso, os quadrinhos conversam muito com muitos assuntos reais da vida e, é claro, deu origem ao novo álbum, feito como trilha sonora para a história.


Agora, voltando às músicas, encontramos um álbum recheado de novas metáforas que aborda temas principalmente voltados para a saúde mental. Tudo já começa em "Guarda-Chuva", uma música que retrata sobre como é estar perdido e sentir que o clima nunca está bom. Seria como explicar um momento em que já não temos mais em que nos segurar e parecer tudo uma grande chuva, a qual tememos e buscamos fugir. Comparando à história da personagem, Aurora tinha muitos conflitos familiares e essa canção seria a obra perfeita para mostrar como ela se sentia. A música também resgata nosso bom e velho indie-rock do Supercombo.

Levando para a seguinte, "O Guerreiro e a Selva", vemos que a música transita entre perder o porto seguro e ter que encarar os novos conflitos, os quais são logo explicados em "Maremotos". O primeiro single carrega uma letra mais pesada e intensa. Os versos metaforizam transtornos psicológicos e mostram como é a ansiedade e a depressão; como apare no verso "os nossos medos são os nossos papagaios, pesam nos ombros e repetem mantras infernais". Certamente uma das músicas mais fortes do álbum que jogam de forma real e crua como é lidar com a nossa mente ansiosa ou depressiva.


A sequência é "Menina Largata", o terceiro e mais recente single. A intensidade lírica dessa é voltada à busca pela liberdade. Relacionando com a Aurora, diria que é a hora em que fugir parece a solução quanto a busca por si e por liberdade. Trazendo para o lado da vida, é uma música que mostra como os "casulos" são importantes para nosso amadurecimento e podem nos deixar entender como é assumir um "verdadeiro eu" para encontrar a liberdade.

"Robozin" é uma das músicas mais interessantes, uma vez que elas expressam um outro lado da história: como a pressão social nos influencia; como a sociedade quer nos moldar para sermos os "robôs" que funcionam exatamente como somos pensados para ser. O estilo instrumental elabora muito bem uma música mais obscura e também usam efeitos que se relacionam perfeitamente ao nome da canção.  "Parafuso a Menos" segue a mesma linha de como a sociedade tenta nos inserir tantas coisas tentando nos alinhar ou "consertar". Diferente do estilo obscuro, essa é mais aberta e enérgica, como para demonstrar bem que é uma letra mais fervorosa.

O segundo single foi "2 e 1", que é um relato sobre autoconhecimento. Uma letra que explica bem como precisamos de nós mesmos para saber ser quem somos com os outros e também a importância de sempre termos outros para nosso crescimento pessoal. Instrumentalmente, é uma música que evolui de acordo com as passagens pelos versos e refrões.


Em "Meu Colorista", temos uma letra bastante intensa sobre saúde mental. A poesia traz transtornos psicológicos muito bem metaforizados e ainda mais pesados. Um colorista na área cinematográfica é quem ajusta as cores do filme,logo, podemos tirar interpretações sobre alguém especial ou mesmo dos remédios para tratamento de depressão e ansiedade que são citados na música como causadores dos "efeitos especiais".

"Cela" é uma música sobre auto-aceitação tão pesada quanto a anterior, uma vez que mostra como a personagem se rende aos paradigmas da sociedade e a seus conflitos e transtornos. Também é a música do álbum em que a voz da Carol Navarro ganha destaque no refrão. E por fim, o álbum fecha com "Xepa das Estrelas" que traz à tona a nossa fragilidade. E também resume bem descontroles emocionais e a grande viagem da vida.

Adeus, Aurora é um trabalho totalmente autêntico e muito bem criado. A inteligência de estruturar fatos impopulares através de uma personagem é algo único da banda. A criação da HQ é algo inovador e muito interessante. A musicalidade é algo que estamos acostumados deles, mas que nunca nos tira aquele gostinho de queremos sempre ouvir mais. E, vai que, dependendo da repercussão desse novo projeto musical-literário nos traz um novo volume da HQ e do álbum?! Esperamos o melhor por vir deles em breve!