O conceito e significado por trás de "Unreal Unearth", novo álbum do Hozier


Após quatro anos do lançamento de seu último álbum Wasteland, Baby!, Hozier está de volta com “Unreal Unearth” - uma odisseia com dezesseis faixas inspiradas no Inferno de Dante e estruturada em torno dos nove círculos do inferno.

“Grande parte da composição inicial ocorreu nos primeiros dias da pandemia. Parecia uma época muito surreal — como se a Terra estivesse de ponta-cabeça. Essa é a parte do ‘unreal’ (irreal). Foi também uma época de muita desinformação. Parecia que tínhamos entrado em um mundo alternativo. Gostei de ‘unearth’ como verbo ‘cavar’ ou ‘descobrir’. Ele descreve um mundo que não é desta Terra. O disco é a experiência de uma viagem por um determinado período”, diz Andrew Hozier-Byrne sobre “Unreal Unearth”.

“De Selby (Part 1)” é o ato de abertura do álbum, onde Hozier explora a escuridão no contexto da conexão; a si mesmo e ao outro, um senso de tempo e espaço. A faixa tem um final marcante, onde Hozier termina cantando em irlandês. Nos vídeos “Behind the song”, Hozier explicou que o trecho cantado em irlandês (gaélico) expande o pensamento da escuridão na direção de uma canção de amor. “Embora você seja brilhante e leve, você chega a mim como o anoitecer, você vem como o anoitecer. Você e eu meio que nos misturamos, você e eu nos metamorfoseamos. Então, essa mesma ideia de, você não pode ver onde começa e onde termina, é uma metamorfose real de algum tipo.”



“Esses versos em gaélico são apenas sobre metamorfose ou mudança de forma, então é em novas circunstâncias ou na escuridão que você se liberta de muitas coisas. Você não pode mais ver a si mesmo - todo o espelhamento se foi do mundo e nisso você tem o espaço interno infinito com o qual contar, e há muito acerto de contas lá. Há muita mudança."

“De Selby (Part 1)” começa com um dedilhado e falsetes antes de mudar para um eletro-pop em "De Selby (Part 2)", reafirmando a habilidade de Hozier em trabalhar com diversos gêneros. A parte 2 segue explorando e brincando com o tema da escuridão, no contexto de conexão, o senso de tempo e espaço. “As duas partes juntas são algumas das minhas músicas favoritas do álbum”, diz Hozier.


As partes 1 e 2 de “De Selby” fazem referência a um personagem de um livro do autor Flann O’Brien, chamado "The Third Policeman" - uma peça clássica da narrativa irlandesa.

Saindo das faixas anteriores e demonstrando a marca poética de Hozier, “First Time” representa o limbo “Este ciclo de nascimento e morte, de ser levantado por uma experiência e então essa experiência termina e parece que seu mundo desmoronou sobre você e depois desaparece novamente.” pontua Hozier. “Eu realmente gostei de escrever as letras, elas não são muito estruturadas. É quase como falar cantando e eu realmente não tinha explorado muito antes deste álbum, então eu queria experimentar.” conclui.

“Francesca" é o single de estreia do álbum. A música é inspirada na Divina Comédia de Dante Alighieri, principalmente na história de Francesca da Rimini no Segundo Círculo do Inferno, representando a luxúria, o Vale dos Ventos.



Com uma poderosa melodia, a faixa explora temas de amor, compromisso e a jornada pelos 9 Círculos do Inferno:

Primeiro Círculo: Limbo - onde estão os não cristão prudentes e agnósticos não batizados;
Segundo Círculo: Vale dos Ventos - estão aqueles que se entregaram à luxúria;
Terceiro Círculo: Lago da Lama - estão as almas dos que cometeram o pecado da gula;
Quarto Círculo: Colina de Rocha - estão os pecadores avarentos ou gananciosos;
Quinto Círculo: Rio Estige - estão as almas que ficam mal-humoradas na vida e as que se irritam com facilidade;
Sexto Círculo: Cemitério de Fogo - estão os que cometeram heresia;
Sétimo Círculo: Vale do Flegetante - onde residem as almas violentas;
Oitavo Círculo: Malebolge - onde estão os diferentes tipos de fraudadores;
Nono Círculo: O lago Cocite - é onde acontece a punição pelo pecado da traição.

A música também traça um paralelo com a história de amor de Francesca de Rimini - um testemunho do poder do amor em meio aos desafios que podem abalar a devoção de alguém.

“I, Carrion (Icarian)” é sobre tentar capturar o sentimento de quando você está decolando - que às vezes você está apaixonado por alguém, você se depara com o sentimento de leveza que nunca sentiu antes, mas também é algo assustador. A música faz referência à história de Icarus. “[...] essa música tentou imaginar que ele estava tão apaixonado, tão sem fôlego e tão extasiado no momento em que sentiu o ar passando por ele, que nunca soube que havia morrido. E que ele meio que acordou, ele acordou morto, como dizemos, e estava em completa negação disso, tendo estado em tal lugar de êxtase, e é tipo, isso misturado com algum tipo de canção de amor." diz Hozier.


Fazendo referência ao ensaio satírico “A Modest Proposal”, de Jonathan Swift, em “Eat Your Young” Hozier descreve um banquete sendo preparado e junto, o caos. A faixa traz um mix de sentimentos dos Nove Círculos, em específico o terceiro: O Lago da Lama.



Junto com Brandi Carlile, em “Damage Gets Done”, Hozier e Brandi refletem sobre a juventude e imprudência e o dano que é causado a longo prazo à vida e/ou sociedade. A faixa faz referência ao quarto círculo - Colina de Rocha: o círculo da avareza.

“Enquanto aquela música tomava forma, eu queria que fosse um dueto. É como uma música de fuga. Não é tão fácil acessar essa alegria, essa sensação de admiração quando você é jovem que captura sua diversão por um momento e depois desaparece. Brandi tem uma daquelas vozes poderosas o suficiente para realmente alcançar aquela sensação de uma balada clássica, quase poderosa.” pontua Hozier.


“Who We Are” é sobre duas pessoas que estão, sem saber, trazendo seus próprios problemas para um relacionamento. Você e eu esgotamos nossa energia / Perseguindo os sonhos de outra pessoa / Como algo pode ser tão mais pesado / Mas tão menos do que aparenta? 

“Algo que eu queria incluir no álbum era essa ideia de nascer à noite, de começar na escuridão total. É uma música que começa na infância, nesta hora fria e escura, perdendo-se e depois apenas abrindo caminho na escuridão. É uma ideia que eu queria colocar em uma música há anos, mas nunca o fiz.” "Nós nascemos à noite / Tanto de nossas vidas / É apenas escavar pelo escuro / Para chegar tão longe."


Fazendo a ponte entre as canções energéticas para um território mais sombrio, “Son of Nyx” é um interlúdio de aproximadamente 3 minutos. A canção é a representação dos primeiros passos de Dante em direção à luz, em sua jornada pelo Inferno. Em entrevistas, Hozier diz que embora a música também seja sobre Nyx - a deusa grega da noite - e seu filho Caronte, que transporta as pessoas recém falecidas pelos rios Styx e Acheron, a música tem um significado mais pessoal para ele.

A faixa é uma homenagem ao falecido pai do amigo e baixista, Alex Ryan. “O que você ouve no início é o memorando do telefone, você pode ouvir o tique-taque do relógio na sala da família dele. O pai de Alex se chama Nick, então o nome da música é um jogo de palavras. Na fábula grega, Nyx é a deusa da noite e diz-se que um de seus filhos é Caronte, o barqueiro que leva as pessoas ao submundo. Todas aquelas vozes que você ouve são os refrões ou ganchos das outras músicas do álbum distorcidos ou desafinados, então você está ouvindo as outras músicas girando naquele espaço”.


Representando o Sexto Círculo do Inferno, o Cemitério de Fogo - que representa a heresia, “All Things End” é uma interpretação que se inclina para o fim de um relacionamento romântico. Quando canta “Quando as pessoas dizem que algo é para sempre / De qualquer forma, termina”, Hozier carrega os temas fortemente, mas não de um ponto religioso. Entretanto, estimula as pessoas a seguir em frente quando diz “Não devemos mudar nossos planos / Quando começamos de novo”. É uma música sobre aceitar, sobre desistir de sua fé em algo.



“Uiscefhuarithe”, é uma palavra irlandesa para ‘algo que foi resfriado pela água’. “To Someone From A Warm Climate (Uiscefhuarithe)” é uma reflexão sobre a separação de caminhos, sobre perder a experiência e compreensão do amor após a separação. “Se você cresceu em um clima frio como a Irlanda, aprende a aquecer a cama rapidamente para não tremer por muito tempo. É uma música que escrevi para alguém que vem de um clima quente e nunca tinha experimentado isso antes. [É sobre] o significado de algo tão mundano, mas tão notável - experimentar uma cama que foi aquecida por outra pessoa em um espaço que agora você compartilha com alguém novo. É uma canção de amor”, conclui Andrew.


Abordando o Sétimo Círculo do Inferno - Vale do Flegetante - onde residem as almas violentas, “Butchered Tongue” faz um reflexo sobre as tragédias de culturas que perderam o significado, ao longo do tempo, das suas próprias palavras, da própria linguagem. A letra de “Butchered Tongue” traz referências das brutalidades que aconteceram durante a Rebelião de Wexford, que ocorreu na Irlanda em 1798.


“Anything But” vem representando o Oitavo Círculo, Malebolge - onde estão os diferentes tipos de fraudadores, Hozier canta “Se eu fosse uma maré alta / eu não levaria você embora / Se eu fosse uma debandada / Você não levaria um chute”. A música faz alusão a atitudes gentis, mas na realidade, não se quer nada com a pessoa. “O terceiro verso diz: 'Se eu tivesse o trabalho da morte, você viveria para sempre'. Então é aí que ele se encaixa no círculo de Fraude”, explica o cantor.


“Abstract (Psychopomp)” faz referência à diversas mitologias e religiões, onde um psicopompo é um ser que guia os espíritos do mundo dos vivos para a vida após a morte. Hozier relata que “Quando criança, vi alguém correndo no trânsito para tentar pegar um animal que acabara de ser atropelado por um carro. Essa música olha para aquela memória de forma abstrata e vê toda essa ternura e alguém se arriscando muito para tentar oferecer algum gesto fútil de cuidado para com uma coisa que sofre”.


A penúltima faixa “Unknown / Nth" está associada ao Nono Círculo do Inferno - O lago Cocite, relacionado à traição. Com praticamente as guitarras e os vocais, relembrando o primeiro disco de Hozier, a música reflete sobre ter o coração partido por alguém que você amava e confiava, sobre quebrar o coração de outra pessoa, querendo ou não.


No fim da jornada, “First Light” é a música perfeita para encerrar o álbum. A música traz a sensação e o alívio de ver o céu novamente, representando o fim da odisseia de Dante, onde ele vê o céu mais uma vez depois de passar por períodos sombrios e de sofrimento.

“Parecia uma música final apropriada – de sair e ver a luz do sol pela primeira vez. [...] O disco precisava de algo assim. Precisava dessa respiração profunda conclusiva, dessa renovação do vento nas velas e depois continuar a partir daí”, narra Andrew.


Se “De Selby (Part 1)” era uma faixa sobre o espaço interno onde você pode refletir quando é deixado sozinho, “First Light” é o oposto. É sobre se encontrar, sobre ver o mundo novamente como se fosse a primeira vez. É o momento íntimo de dividir o espaço com outra pessoa quando um novo dia nasce.

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