Em “Hazel Eyes”, Sam Smith transforma o amor em sua maior reinvenção

Em seu quinto álbum, Sam Smith troca a grandiosidade pop pela intimidade para transformar um amor correspondido em seu trabalho mais humano e vulnerável. Hazel Eyes inaugura um capítulo promissor para a carreira do cantor.


Sam Smith passou boa parte da carreira fazendo da dor de amar uma experiência grandiosa. De “Stay With Me” a “Too Good at Goodbyes”, a solidão, o desejo e os relacionamentos frustrados se transformaram em grandes baladas. Depois da liberdade estética de Gloria (2023), que levou Smith a territórios tão diferentes quanto o pop eletrônico e o gospel, “Hazel Eyes” apresenta uma mudança igualmente significativa: pela primeira vez, o artista parece escrever a partir de um lugar de felicidade.

O quinto álbum de estúdio de Sam é, essencialmente, um disco sobre descobrir o amor correspondido, mas sem transformar esse sentimento em uma fantasia perfeita. Ao longo de 12 faixas, o artista passa pela paixão, intimidade, insegurança, brigas, traição, perdão e pela escolha de continuar amando mesmo quando o relacionamento revela suas imperfeições.

Musicalmente, essa mudança aparece de imediato. Hazel Eyes abandona boa parte da grandiosidade eletrônica de trabalhos anteriores e aposta em guitarras, piano, cordas, bateria orgânica e grandes coros. O resultado é um álbum mais artesanal, íntimo e deliberadamente humano, no qual a voz de Smith deixa de ser usada apenas como instrumento de impacto e passa a funcionar quase como mais um elemento da produção.

“Everlasting Love” abre o disco como uma espécie de prólogo para essa história. A faixa inicia como uma reflexão sobre a solidão da vida noturna e os desejos de quem procura uma conexão mais profunda, mas ganha outro significado quando Smith encontra seu atual parceiro. A faixa-título segue pelo mesmo caminho, transformando os olhos da pessoa amada em símbolo de segurança e entrega. Já “Moondance” chega com uma atmosfera misteriosa e sedutora irresistível

Tudo já estava épico, mas é em “My Guy”, porém, que o álbum encontra um de seus momentos mais encantadores. Com uma sonoridade retrô e romântica, o artista abandona a poesia grandiosa para simplesmente celebrar estar apaixonado. O resultado é leve, divertido e especialmente significativo por tratar o amor queer com absoluta naturalidade: não como tragédia ou provocação, mas simplesmente como uma história de amor.


A felicidade começa a rachar em “When He’s Gone”, um dos grandes destaques do álbum. A música mergulha nas discussões de um relacionamento e na dependência emocional que faz alguém prometer que vai mudar mesmo sabendo que o ciclo pode se repetir. Já “Thief” transforma a desconfiança em uma narrativa mais concreta, com Smith sozinho durante a madrugada, lidando com distância, insônia e a sensação de ter sido enganado.

É justamente quando Smith abandona as metáforas mais abstratas e descreve situações específicas que Hazel Eyes se torna mais poderoso e pessoal. Isso fica ainda mais evidente em “Oh Mother”, que utiliza o TwoCity Chorus para criar um diálogo carregado de tensão entre uma pessoa ferida e sua mãe. A música não oferece uma solução fácil para a dor e deixa aberta a possibilidade de reconciliação. É um dos momentos em que o álbum melhor demonstra que amar alguém também significa lidar com as consequências das escolhas dessa pessoa.

“Constant Companion” segue uma direção completamente diferente, incorporando elementos de outlaw country e uma atmosfera de faroeste. Com as cordas cinematográficas de Rob Moose, Smith assume um registro mais grave e transforma o casal em uma espécie de dupla de amantes fora da lei. É uma das faixas que melhor evidencia a liberdade criativa do projeto.


Nem todas as músicas alcançam a mesma força. “Sugar Rush” é divertida, mas superficial perto dos momentos mais confessionais do disco, enquanto “Hold On” recorre a imagens de rios, oceanos e esperança que soam familiares demais. Em alguns momentos, Sam parece confiar mais na potência da própria voz do que na força das letras. Ainda assim, os melhores momentos de Hazel Eyes são suficientes para revelar um artista em transformação.

O encerramento, “To Be Free”, sintetiza essa nova perspectiva. Depois de passar o álbum inteiro tentando entender o que significa amar alguém, Smith chega a uma conclusão menos romântica e mais madura: não existe relacionamento perfeito, e talvez essa seja justamente a beleza de encontrar alguém com quem ainda vale a pena ficar.

Hazel Eyes não é uma volta ao passado de Sam Smith, nem uma tentativa de repetir o impacto de “Unholy”. É um álbum sobre crescer, encontrar segurança e descobrir que vulnerabilidade não significa apenas admitir que está sofrendo. Às vezes, também significa admitir que está feliz. E, para um artista que fez carreira cantando sobre corações partidos, talvez não exista reinvenção maior do que aprender a cantar sobre um coração que finalmente encontrou onde ficar.

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