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Dedicado ao seu falecido pai, Mike Posner explora sua vulnerabilidade no emocionante novo disco "A Real Good Kid"

Muita coisa aconteceu com Mike Posner desde seu smash hit “I Took a Pill In Ibiza”, que bombou mundo afora em 2015. Agora, voltando mais maduro do que nunca, o músico nos leva para a jornada desses acontecimentos dos últimos anos em A Real Good Kid, o novo disco de Mike que promete te surpreender, emocionar e te fazer refletir. Dedicado ao seu falecido pai, o trabalho é de longe um dos mais vulneráveis de toda a sua carreira.

Desde seu último álbum, Mike Posner retornou à indústria musical de cara lavada, pronto para compartilhar com o mundo a versão mais honesta de si mesmo. Mas tragédias continuaram assombrando a vida do cantor: a morte do seu pai, o suicídio chocante de seu amigo Avicii e o término doloroso com a sua parceira. Porém, em meio a tudo isso, ele continua fazendo de sua história pura arte e poesia. Foi assim que o músico de Detroit deu luz a mais um álbum tão inspirado. A Real Good Kid explora a perda de um jeito desolador, sincero e extremamente pessoal. É uma experiência completamente única.

Logo de cara, assim como já fez anteriormente no At Night, Alone, Mike começa com uma faixa introdutória instruindo o ouvinte como ouvir o disco: sem interrupções e na ordem, dedicando sua atenção completamente à palavra de Posner. Logo ele solta: “People keep asking what happened to me. What happened to me? The answer is this.”. Assim ele explica aos curiosos o que aconteceu com ele nos últimos anos em “January 11th, 2017”, faixa que marca o dia em que seu pai faleceu, já dando partida na temática principal do álbum.

Nessa primeira canção, através de versos como “I cleaned out your dresser, found some joints My sister smoked 'em, I didn't see the point”, o músico relembra os mínimos detalhes desse dia tão marcante e triste de sua vida. Ela começa com um coro que ecoa friamente em forma de luto, já dando pistas do que teremos ao longo do disco: uma performance forte e vulnerável, com vocais marcantes e cheios de sentimento. São versos simples, porém de tamanha intensidade, a ponto que chega arrepiar e arrancar algumas lágrimas do ouvinte. A faixa ainda termina com uma gravação de Mike conversando com seu pai, Jon Posner.

Seguindo, temos a inusitada “Wide Open”, uma música inspirada em melodias trap que resgata valores da vida e da fé em si com letras profundas e melodias ácidas, experimentais e penetrantes. A mesma serve para abrir e incendiar o cenário para a próxima música: “Song About You”. Esta, por sua vez, traz o músico em chamas em uma canção pós-término que deixa a poesia e rimas de lado para exalar apenas os seus sentimentos do jeito que forem saindo mesmo. É uma canção crua que projeta perfeitamente a ardência do coração de Mike após o fim do relacionamento com sua amada.


Por um pequeno momento, a coisas se suavizam em “Move On”, uma faixa iluminada e inspiradora onde o cantor imprime seu luto em forma de música, listando todos os eventos tristes que aconteceu nos últimos anos e nos dando um pequeno gostinho de superação com uma percussão solar e refrescante. Essa mistura doce, porém, é temporária. Já que a faixa seguinte registra um dos momentos mais amargos de todo o disco. 

“Drip” é uma obra de arte do começo ao fim. Novamente com elementos trap, batidas experimentais e caóticas, Mike Posner agora cria uma atmosfera peculiar e esquizofrênica para uma das faixas mais reflexivas e vulneráveis do trabalho. Ao longo da música, os instrumentais se distorcem até que o músico dá um discurso desolador e pessoal sobre a dor que sente em sua vida em várias áreas. É um desabafo sem filtros, completamente cru e doloroso. 

Seguindo, temos a ardente “Staring at The Fire”, com o refrão épico guiado junto a um coral, que canta “watch it burn” em repetição. É uma mensagem novamente bem forte. E logo mais, reflete sobre as pequenas perfeições da vida em “Perfect”, faixa onde colidem charme e angústia em uma explosão musical orgânica cheia de cores. É, no mínimo, uma das mais interessantes do álbum. 


E, já encaminhando para o fim, “Stuck In The Middle” nos encanta e deixa nossa alma leve com uma música simples e contagiante ao mesmo tempo que flui de forma acústica. É uma canção que toca no passado do Mike, destacando seu crescimento pessoal e despertando os pensamentos mais profundos do músico. São muitos sentimentos que se catalisam em uma só canção. E, para finalizar, “How It’s Supposed To Be” é uma última música para seu pai onde Mike Posner continua refletindo sobre sua vida, tocando sem medo na ferida angustiante do luto, porém terminando de um jeito doce e esperançoso que marca a aceitação. No ponto final da faixa, aliás, temos uma gravação de Jon Posner, em 1988, mostrando aos amigos o pequeno Mike recém-nascido e se dirigindo a ele como “a real good kid” (“uma criança do bem”), que consolida o conceito final do álbum e deixa um pequeno vazio e sentimento de compaixão ao fim. 

É difícil colocar em palavras a viagem que Mike Posner proporciona em seu novo disco. A Real Good Kid, traz faixas bem amarradas, todas com um teor emocional muito forte, e uma pegada experimental realmente muito singular ao repertório de Mike, pela performance vocal e instrumental que as canções carregam. O cantor soube expôr sua vulnerabilidade de forma selvagem como nunca antes e isso nos envolve em uma mistura diversa e contrastante de sentimentos. A evolução pessoal de Mike Posner é a coisa mais bonita de se acompanhar, e é com toda certeza que falamos que Jon Posner está olhando lá de cima muito orgulhoso.