Khalid reúne questões sobre a juventude e cria atmosfera intensa em "Free Spirit"



Khalid consegue juntar canções de amor, conselhos e retratos pessoais em um só álbum. Free Spirit, seu mais recente álbum, nos traz muita inovação para o mundo do R&B. O disco segue a mesma vibe musical que nos conquistou no debute do cantor, mas já antes da metade consegue surpreender. O cantor faz um paralelo com a vida moderna e parece estar em outra fase, nesse pós-american teen.

Já podemos chamá-lo de obra quando vemos uma “Intro”. Ainda mais quando ela não se constitui apenas de frases ou melodias soltas. Os pesados sintetizadores e o sentimentalismo resumem perfeitamente o que vem por aí. O compilado de “Bad Luck”, “My Bad” e “Better” é mais parecido com o que o artista já fazia antes. As três dispõem de um ritmo tão relaxante e uma atmosfera tão romântica, que fica difícil não se apaixonar. A melancolia também é presente, mas calmaria ainda é mais forte. Elas falam sobre a vida após um break up. Dão uma lição de humildade e de como aprender a viver sozinho. A voz constantemente se culpa pelos problemas que o relacionamento passou ou está passando. Até chegar em “Better”, em que ele simplesmente quer viver o momento, sem compromissos ou pesos. 


As músicas de Khalid são difíceis de explicar. É algo tão característico que fica difícil compará-las com outras já existentes. Agora, ele ainda adiciona o electropop refinado junto a uma leve influência anos 90, característica predominante no single “Talk”. O ritmo muda, e o cantor começa a explorar melhor os seus vocais, que por vez se tornam mais agudos. Escutamos falsetes e graves alternados, mas ele desempenha a mudança de tons com excelência. Nessa fase, a atmosfera é um pouco mais animada e dançante. Mesmo assim, a tranquilidade é o que prevalece. Inclusive na temática. 

As letras, no geral, são sobre histórias de amor. Porém, algumas provam ser muito mais do que isso. O álbum todo paira sobre relacionamentos problemáticos, o estado de paixão, reflexões sobre a vida e ainda tem um toque de espiritualidade. O artista também continua adicionando elementos do mundo moderno, assim como em American Teen, citando e criticando nosso abuso e dependência do mundo digital atualmente: “Keeping my phone alive. Hoping that you call this time” é um dos exemplos em “Don’t Pretend”.

“Paradise”, é a primeira em que os versos passam a refletir sobre a vida. Mostra como a realidade pode ser dura às vezes, através de diversas situações reveladas no short film do álbum. Então, “Hundred” fala dos empecilhos ao redor. “Try to knock me down, but I get back on my feet” e “Know it's real, take your time, you're almost there” ilustram a nova fase da vida do cantor. Ele amadureceu e a paciência parece ser a chave de tudo. O que explica também o ritmo das faixas.

No short film também temos muita representatividade e elementos do mundo jovem. Ele acompanha as aventuras de um grupo de amigos. É feito de altos e baixos, momentos de curtição e de conflito. Uma viagem em que tudo é muito intenso, assim como o som do disco. A espiritualidade presente no final é explicado aqui com o desfecho dos protagonistas, mas não vamos dar spoiler. 


Chegamos a “Twenty One” e “Self”, duas músicas muito pessoais. Khalid exprime as dificuldades dessa etapa da vida, mas como telespectador. Na primeira, dá conselhos sobre seguir em frente e ainda menciona a ansiedade e a depressão, problemas tão discutidos e recorrentes hoje em dia. Enquanto sobre a segunda, já alegou em entrevista a Beats 1 ser “como ele se sente sobre ele mesmo”. Na trama, descobrimos sobre a sua vontade de ser lembrado e o seu “little trouble with self-reflections”.

Para finalizar, o cantor parece resumir um pouco de tudo o que vimos até agora. Temos “Free Spirit”, em que o clima é romântico e lento, como a maioria, e ele se mostra muito apaixonado. Então, “Bluffin” já volta com a melancolia e os relacionamentos problemáticos. Com “Alive”, o clima obscuro se intensifica ainda mais, para refletir novamente sobre a vida, principalmente, em como encaramos a morte. Os versos são muito poéticos e podendo ter significados diferentes para cada um. Basta ouvir o trecho “I shouldn't have to die to feel alive” e deixar a imaginação fluir.



Já caminhando com essa pitada de espiritualismo, nos deparamos com “Heaven”, escrita pelo grandioso Father John Misty. Os vocais refletem sobre o ser, da vida e até a morte. Por fim, para não concluir Free Spirit com um clima tão pesado, é inserida “Saturday Nights”. Uma canção já presente no ultimo EP, Suncity, que narra a história de uma pessoa amada que tem uma vida problemática, enquanto o narrador demonstra o quanto se importa com ela.  É mais parecida com as antigas e de atmosfera leve. Tornando tudo soft, com o seu estilo Khalid de ser.

É certamente um álbum honesto, em que Khalid despeja sua alma, sem filtros. Suas reflexões e sentimentos mais profundos são traduzidos na mais bonita musicalidade que temos atualmente sendo produzida pelos nossos jovens pupilos na indústria. Free Spirit é uma obra de arte preciosa e absurdamente inspiradora!