O synthpop nunca esteve tão vivo como em “Love is Dead”, de CHVRCHES





Mostrando que cada vez menos se torna possível colocar músicas em gêneros específicos e independentes, CHVRCHES inaugura sua nova era misturando pop, rock, indie, synth, EDM e o que mais achou necessário para criar um álbum sólido e de muito potencial, com novas experimentações sem abandonar seu clássico estilo à la Depeche Mode.

É natural que um artista, eventualmente, acabe mudando e experimentando novos caminhos em trabalhos de acordo com as diferentes fases de sua vida. Ainda que corra riscos de rejeição por parte de um público que o acompanha há tempos, o lado contrário também é válido no que diz respeito a poder atrair outros tantos apreciadores dessas novidades. Se você já conhece o CHVRCHES, poderá notar em Love is Dead certa mudança no modo como as músicas são apresentadas. Um nome constante na produção do novo álbum é Greg Kurstin, conhecido por trabalhar com grandes artistas como Sia, Adele, Foster the People e Foo Fighters, e que, para muitos, foi o responsável pela diferença sonora da banda, que produziu de forma independente seus álbuns anteriores. Entretanto, não estamos aqui para comparar nada como melhor ou pior.

Analisando Love is Dead como um produto sonoro único é o melhor jeito de apreciá-lo. Há muita coisa bacana acontecendo e elas podem passar despercebidas caso se insista na comparação com outras eras passadas. Ele se mostra como um álbum forte, com alto potencial para a banda se destacar entre um público que é saudosista à sonoridade de décadas passadas, mas que ao mesmo tempo ainda gosta do café com leite comercial da atualidade. É notável que o CHVRCHES adaptou seu trabalho para torna-lo mais acessível, mas dizer que sua essência não continua ali, é faltar com a verdade. Os sintetizadores retrô continuam, a vocalista principal Lauren Mayberry ainda se mostra muito confortável e as letras, como de costume, carregam muita verdade.


Os álbuns anteriores do CHVRCHES eram como estar num ambiente calmo à meia-luz, e agora parece que apenas colocaram várias luzes neon ao redor dele. Isso fica claro já nas duas enérgicas primeiras faixas, “Graffiti” e “Get Out”, onde há uma clara afirmação do pop pelos refrões marcantes em ritmos contagiantes, especialmente na segunda. A música inicial tem seu destaque na parte instrumental e, além de resumir bem o conceito do álbum, conversa diretamente com a sua capa e define o cenário do que está por vir mais a frente, em letras e melodias. Já a que vem na sequência, o carro-chefe dessa era, talvez seja a que as pessoas mais gostarão de ouvir: é uma canção liricamente muito simples, mas de fácil memorização e com uma boa produção em volta, reunindo todos os aspectos que um hino do pop necessita.

“Deliverence” se encontra encurralada no meio de dois grandes destaques do álbum, e apesar de divertida e ainda manter o bom nível, pode passar batida pelo excesso de repetições e ecos dos versos, até mesmo onde não é um refrão. Diferente de “My Enemy”, um dos ápices de Love is Dead, que conta com a participação de Matt Berninger, da banda The National. Na faixa que talvez mais remeta aos trabalhos antigos da banda, Matt soma seu vocal com o de Lauren e os dois se encaixam com tamanha perfeição que o cantor parece destinado a ser membro fixo do CHVRCHES – é tudo construído com delicadeza e a melodia também se mostra extremamente atraente. 

Em entrevista, a banda havia dito que queria que as músicas novas também tivessem uma pegada que funcionaria bem ao vivo, e isso fica claro em “Forever”, onde a guitarra e a bateria são bem fortes, focando mais no lado rock alternativo.

As próximas duas faixas foram também os últimos singles até então. “Never Say Die” é outro ponto alto do álbum e acerta em cheio em balancear justamente aquilo que a banda é em essência com um quê a mais de energia. Impossível não ser cativado pelas vozes de fundo cantando “Didn’t you say that? Didn’t you say that?”. E “Miracle” segue a mesma linha de “Get Out” no que diz respeito à fácil identificação do público por ser mais comercial, e diria que é ainda mais pop. A sonoridade é bastante similar ao que o Imagine Dragons costuma fazer, cheio de coros de “Oooohh”. 

“Graves” tem igualmente potencial de um bom single: é poderosa, divertida, chamativa sem apelar para muitas repetições. Ela facilmente poderia estar tocando em festas ou trilha-sonora de séries teen. Então seguimos para “Heaven/Hell”, onde o CHVRCHES retorna a cutucar as feridas e mostrar os problemas sócio-políticos da atualidade como sempre fez. É uma música forte e bem composta, que reitera o fato de que a banda continua firme no que sempre foi, independentemente de quais outros gêneros musicais ela agregará em sua produção.



A partir daqui a cara do álbum começa a mudar bastante. Novos tempos são introduzidos e uma pegada experimental entra em cena, bem diferente de tudo o que já foi apresentado até então. Em “God’s Plan”, Lauren vai para o background e dá espaço para seu companheiro de banda, Martin Doherty, tomar as rédeas dessa balada interessante que brinca muito com a EDM. “Really Gone” e “ii” são complementares, ao passo em que a segunda é apenas uma interlude, que ficaria ótima se tocasse ao final da primeira e funcionaria melhor. O Love is Dead encerra-se, então, com um saldo final muito positivo com “Wonderland”, faixa muito bem colocada por resumir o sentimento proporcionado pela experiência do álbum.

Em uma entrevista pré-lançamento do álbum, a banda definiu muito bem como deve ser a experiência plural de ouvir o Love is Dead e o que a banda é antes de mais nada: “I like the idea that this band can be pop and emo and punk. It can be popular; it can be emotional, it can still be kinda punk and DIY in the execution. That’s kinda cool, it doesn’t need to be all of one thing or the other, maybe that’s what makes it what it is?”.

What Tracks to Keep: “Get Out”, “My Enemy”, “Never Say Die”, “Graves”.